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SENHOR DOS PASSOS

A devoção do Senhor dos Passos é de profunda e ampla tradição entre os católicos, evocativa dos últimos momentos de Jesus desde a sua condenação à morte. Com origem nos tempos medievais, motivou a organização de confrarias e de procissões celebradas durante a Quaresma.
 
No concelho do Bombarral, tem grande expressão na paróquia do Carvalhal, cujo Santuário apresenta a respectiva imagem em capela própria.
 
No Bombarral-vila, a imagem do Senhor dos Passos atualmente a culto na igreja paroquial tem origem numa outra muito antiga, que se encontrava na primitiva matriz do Santíssimo Salvador do Mundo. Nas Memórias Paroquiais (1758), aqui se referia a existência da “Irmandade dos Santos Passos”.
 
Durante a agitação anti-clerical da I República, o Bombarral, então recentemente constituído como concelho (18 de Março de 1914), foi palco de alguns exaltados episódios, de que ficou na memória a profanação daquela igreja no dia 14 de Maio de 1915.
 
Durante este blasfemo acto, foram destruídos órgão, alfaias litúrgicas e imagens de vários santos. Mas, quando alguns profanadores se divertiam com a cabeça do Senhor dos Passos, a conhecida “Narcisa Peixeira” terá arrebatado a cabeça e corrido a levá-la a António Pereira Bernardino, importante vitivinicultor, que então residia na Quinta da Granja.
 
Durante as décadas seguintes, o Bombarral não teve pároco, sendo alguns atos litúrgicos celebrados pelo prior do Carvalhal, na pequena Capela da Madre de Deus, por deferência do seu proprietário, Abel Pereira da Fonseca.
 
A “Cabeça” manteve-se na posse daquela família até ser incorporada numa nova imagem do “Senhor dos Passos”, cujo andor, transportado pelos filhos de António Pereira Bernardino, entrou na nova Igreja do Santíssimo Salvador do Mundo no dia da sua inauguração, 5 de Julho de 1953, e ali se mantém desde então.
 
 
 
CENTENÁRIO DA CRIAÇÃO DO CONCELHO
 
Consumadas, em Março de 1914, as principais datas importantes relativas à criação parlamentar e oficial do nosso Concelho, iniciamos a sua divulgação, neste momento, tal como  a evocação das vividas, antes desse Março de há um século.

10 de Julho de 1912, a Câmara dos Deputados aprovou a proposta de Lei para a elevação do Bombarral a Concelho. Essa decisão, porém, necessitava, constitucionalmente, da votação do Senado para se tornar definitiva, se ela fosse também favorável, ou voltaria à Câmara dos Deputados para nova deliberação, se aquela fosse negativa.

16 de Julho de 1913, o Senado, depois de diversas sessões inconclusivas, acabou por votar contra a criação do Concelho, por desanexação do de Óbidos e, portanto, o projecto de Lei voltou à Câmara dos Deputados.

27 de Fevereiro de 1914, a Comissão de Administração Pública da Câmara dos deputados emitiu o Parecer n.º 42 o qual, afastando qualquer tipo de devaneios, incidia na proposta de que aquela “Câmara”, clara e unicamente, votasse a rejeição da reprovação do Senado e declarasse confirmada a sua deliberação de 10 de Julho de 1912, que aprovara a criação do Concelho do Bombarral.
 
Entretanto, o deputado Ferreira do Amaral, eleito pelo Círculo de Leiria, apresentara nova proposta para que a sede de Concelho, pura e simplesmente, fosse transferida de Óbidos para o Bombarral, tanto que, perante tal eventualidade, a Associação Comercial e Industrial das Caldas da Rainha oficiara, para que fossem transferidas para aquele Concelho as paróquias dele mais próximas, no intuito de que não passassem a ficar tão distantes da sede do futuro Município.
 
4 de Março de 1914, com base em tal parecer da Comissão da Administração Pública, a Câmara dos Deputados reuniu e, depois de algumas discussões, rejeitou a decisão do Senado e reiterou a sua anterior deliberação positiva.

Voltaram, e de novo, a funcionar os dispositivos constitucionais e o projecto de Lei n.º 397 subiu ao Congresso da República, que juntava o conjunto dos senadores e deputados, para que se assumisse, em definitivo, qual o caminho a dar à intenção dos bombarralenses de as paróquias do Bombarral, Carvalhal e Roliça, se constituírem num novo Concelho, a destacar do de Óbidos.

18 de Março de 1914, reunido o Congresso da República para decidir o destino daquele projecto de Lei, e após renhidas intervenções, a favor e contra, acabou, finalmente, por ser criado o Município do Bombarral.
 
Conforme estava combinado, um dos responsáveis políticos bombarralenses, assistente àquela sessão parlamentar, enviou um telegrama para a respectiva estação do Bombarral e a sua funcionária, logo que ele chegou, veio à rua e gritou “Evandro, Toca o Bombo!”   

Evandro Freire, executante de bombo na banda de música local, arrancou pela localidade fora, percutindo o instrumento e gritando que o projecto de Lei tinha sido aprovado. O povo bombarralense saiu à rua, juntou-se à alegre manifestação sonora do “Evandro” e, durante toda a santa noite, desenrolou-se um alto momento de celebração e exaltação, onde não faltou fartura de comida… e vinho!

Durante o período próximo, irá sendo actualizado este painel de informações sobre os momentos importantes, que levaram à instalação do nosso Concelho.
 
 
RETALHOS HISTÓRICOS ANTECEDENTES À FUNDAÇÃO DO CONCELHO
 
Com a Cristianização da área que corresponde hoje ao concelho do Bombarral, instalaram-se neste território algumas quintas ou granjas que eram administradas pelo Mosteiro de Alcobaça. O posterior povoamento e ordenamento do território, embora com a continuidade da administração cisterciense, enquadraram a região na jurisdição municipal de Óbidos.

Desde finais do século XV que já se encontravam constituídas as três paróquias do Bombarral, Carvalhal e Roliça, as que em 1914 viriam a dar corpo territorial ao concelho do Bombarral. Localizadas na parte Sul do Município de Óbidos, e nele se incorporando quase permanentemente até ao início do século XX, cedo as suas populações abraçaram os ideais da criação de uma nova autarquia, desmembrada da de Óbidos, onde as três se viessem a integrar.
 
 
Castelo de Óbidos                                              D. João III  
 
 
Quinta dos Loridos                                              “Cadeia Velha”: Parte sobrante
                                                                        da Câmara do Cadaval  (Século XIX)
 
Contudo, os homens fortes e influentes de Óbidos, cujo Castelo estava cometido à “Casa das Rainhas”, endereçaram petição à soberana, em 1535, para que interviesse junto do monarca, no sentido de que não sofresse qualquer alteração a área territorial e administrativa do seu concelho. Este desejo obteve merecimento, tendo sido esta a primeira tentativa conhecida, e gorada, para que o Bombarral, e sua região adjacente, fossem elevados a Concelho.
 
O VAI-VEM DAS FREGUESIAS
 
A divisão territorial de Mousinho da Silveira, operada em 6 de Novembro de 1836, desanexou do concelho de Óbidos as freguesias do Bombarral e Carvalhal e atribuiu-as à gestão municipal do Cadaval.

Não tendo sido vista com bons olhos pelos agricultores daquelas freguesias, a mudança foi entusiasticamente aceite pelas classes empresariais e pelos artífices, decerto mais progressistas. A participação dos últimos, também de forma financeira, na reconstrução da estrada Bombarral-Cadaval- Cercal (passando pela Quinta dos Loridos), foi fulcral no sentido da sua melhor qualidade para o transporte de mercadorias até ao Carregado, de cujo cais fluvial partiam para a exportação ou distribuição interna.

Porém, o reordenamento territorial decide o regresso de ambas as freguesias ao concelho de Óbidos e, nem duas petições, uma, dirigida ao Parlamento para que tal deliberação fosse implementada e outra, de teor inverso, apresentada a D. Pedro V, modificaram a opção final de subordinação autárquica ao município de Óbidos.

Esta alteração provocou a manifestação dos responsáveis e do povo do Concelho do Cadaval, evidenciando a chegada de um tempo de grande penúria, por lhes ter sido retirada a parte economicamente mais florescente do Município.
 
A EVOLUÇÃO E O PROGRESSO
 
As anteriores transformações administrativas acabariam por incutir nos bombarralenses e carvalhenses, sentimentos para investirem, com trabalho e organização, na criação de condições que levassem à fundação de um município na parte mais a Sul do Concelho de Óbidos, a sua região mais produtiva e empreendedora.

O progresso começaria a chegar mais facilmente, pois, em 1878, ficava transitável o troço de Torres Vedras ao Bombarral da nova estrada Lisboa-Caldas. O escoamento dos bens aqui produzidos e as deslocações à capital do Reino tinham ficado francamente mais facilitadas. Contudo, não tardaria uma década para que uma nova estrutura de transportes tocasse a região, dado que, em 1887, o Bombarral passou a ser servido pela linha-férrea do Oeste, com toda a panóplia de facilidades que disponibilizava o comboio.

Nesse ano, fruto da dinâmica e consciencialização políticas, os bombarralenses fundaram a Associação Literária Primeiro de Dezembro de 1640, com objectivos cívicos, sociais e de instrução. Aquela associação, encerrada por ordem do Governo, reabriria com a designação de Grémio Escolar Bombarralense. Logo a seguir, em 1892, é inaugurada no Bombarral a primeira escola oficial de instrução pública, um factor muito importante para a evolução e educação do povo local.

O aumento da instrução e desenvolvimento dos sectores produtivos da região seriam a pedra de toque para a consciencialização republicana que se lhes seguiu.
 
 
Estação de Caminhos de Ferro do Bombarral:         Arco das Barreiras:
Período de implantação da República                    Linha férrea do Oeste
 

 Escola de Instrução Pública (1892)                       Centro Escolar Republicano João Chagas
 
 
Centro Escolar Republicano João Chagas: Membros dos Órgãos Sociais
 
A IMPLEMENTAÇÃO REPUBLICANA
 
Em Abril de 1895 dá-se um facto que remói as mentes conservadoras dos obidenses: O Partido Republicano abre no Bombarral a sua Comissão Municipal de Óbidos. Nesse mesmo momento reuniu a sua Assembleia Eleitoral, que sufragou a Comissão Concelhia a qual, presidida por Casimiro da Silva Cairel, constituiria o motor político e a força dinamizadora de toda a actividade cívica e administrativa que movimentaria e sensibilizaria as populações locais.

Num desses actos, e com a presença dos dirigentes Bernardino Machado, Magalhães Lima e outros, foi inaugurado no Bombarral em 1908, como pólo aglutinador dos militantes, simpatizantes e ideais republicanos, o Centro Escolar Republicano João Chagas.

Os bombarralenses confiavam que a República seria implantada em breve e contavam, com toda a segurança, que os amigos republicanos elevassem a sua terra a concelho, mal essa situação ocorresse. Prova da fidelidade à República foi o facto de, com a suspeita de passar pela linha do Oeste uma composição de contra-revolucionários vindos do Norte, para impedirem a sua implantação, a população do Bombarral ter acorrido em peso, logo a partir de 3 de Outubro, à estação local dos comboios, para impedir qualquer circulação.

A República, porém, seria instaurada em 5 de Outubro de 1910 e, não há qualquer dúvida de que os concidadãos bombarralenses se entregaram à vigilância e euforia contagiantes que se viviam, indo mesmo um grupo deles a Lisboa, afim de cumprimentarem, manifestarem o seu apoio e entusiasmo, junto do Governo Provisório da República, solicitando-lhe a elevação do Bombarral a concelho.

A crença dos bombarralenses na criação do seu concelho era tão absoluta que, logo em 1911, o Presidente da Comissão Paroquial Republicana de Bombarral intentou arrendar um edifício para instalação da Câmara Municipal.
 
 
Carta dirigida pelo Presidente da Comissão Paroquial Republicana ao General Manuel Raphael Gorjão (Arquivo do Museu Municipal do Bombarral: Documento original 7-6-1911)
 
SESSÕES PARLAMENTARES
 
O Projecto de Lei para a criação do concelho do Bombarral teve constitucionalmente que passar pela Câmara dos Deputados, onde foi aprovado, pelo Senado, que o rejeitou, e, pela diferença das deliberações, teve de ser analisado em plenário de ambas as câmaras, o Congresso da República, que lhe deu a sua apreciação final e favorável.
 
 
 
Abordaremos algumas partes das sessões daqueles órgãos da primeira república, reproduzindo excertos considerados interessantes e curiosos dos respectivos debates parlamentares.
 
Câmara dos Representantes

«Entre as antigas e justas reclamações, figura na primeira linha a formação dum novo concelho com sede no BOMBARRAL, actualmente do concelho de Óbidos, distrito de Leiria, uma povoação importantíssima, com um movimento industrial, comercial e agrícola superior a algumas cidades, e que, a despeito da justiça que lhe assiste desde muito tempo, se tem visto jungida ao concelho de Óbidos, donde não tem obtido compensações materiais, compensações indispensáveis ao seu progresso, embora seja das que mais paga.

Deputado Gaudêncio Pires de Campos, Acta de 24 Abril de 1912, Sessão Legislativa 2 nº14, página 5.

«A grande maioria dos habitantes do BOMBARRAL votou durante muitos anos, a favor da República.
Lembro-me até dum caso engraçado, sucedido há anos nesse concelho: tendo eu ido ali defender uns quinze ou vinte republicanos, acusados pelas autoridades dêsse tempo de qualquer facto, que elas consideraram ofensivo para a monarquia, e tendo sido absolvidos, manifestaram o seu júbilo no dia seguinte, que era domingo, percorrendo as ruas com música, e lançando bastantes foguetes, que foram cair no quintal do prior, onde havia favas, o que levou êsse sacerdote, muito irritado, a queixar-se de que lhe tinham ido ao faval (Risos).»

Deputado Jacinto Nunes, Acta de 10 de Julho de 1912, Sessão Legislativa 2 nº165, página  18.

«BOMBARRAL é uma povoação essencialmente republicana. O seu republicanismo vem dos tempos em que era muito perigoso ser-se republicano, — e foi por isso que todos os republicanos lhe garantiram que, depois de implantada a República, dariam o seu voto a essa sua aspiração, que consideravam altamente justa. E é assim, Sr. Presidente, que eu, aproveitando a ocasião para prestar as minhas homenagens às faculdades de trabalho e ao espírito republicano daquela povoação, dou o meu voto a este projecto.»

Deputado Tiago Sales , Acta de 4 Março de 19124 Sessão Legislativa 1 nº47 página  8.
 
Senado

«EXPEDIENTE
Da Presidência da Câmara dos Deputados, acompanhando a proposta de lei que tem por fim criar no distrito de Leiria um novo concelho, com a denominação de BOMBARRAL.
Para a comissão de administração pública.»

Acta de 12 de Dezembro de 1912, sessão legislativa 3, nº9, página 2.

«O Sr. Evaristo de Carvalho: — Sr. Presidente: parece-me que a questão prévia não tem razão de ser. Parece-me que se não deveria discutir a questão prévia, depois de ter sido iniciada a discussão do assunto.
Devo dizer, em todo o caso, que a criação do concelho do BOMBARRAL é um velho compromisso do partido republicano. Todos os partidos tem responsabilidades neste compromisso porque o BOMBARRAL era uma das terras mais republicanas do país (Apoiados). Era uma terra essencialmente republicana e revolucionária, e ainda nos dias da Revolução, em 3, 4 e 5 de Outubro, o BOMBARRAL prestou serviços à "República, indo toda a população interromper as linhas do caminho de ferro para que as tropas não pudessem vir da província combater a República.
Não deve ser de forma alguma esquecido o BOMBARRAL, e estes factos devem levar todos os bons republicanos a ter simpatia por este povo.»

«V. Ex.a compreende, Sr. Presidente, se nós temos elementos para discutirmos o concelho do BOMBARRAL por várias razões, quando li, já depois de estar no Senado, uma representação, que não torno a ler por ser muito longa, mas que é bem conhecida.
Há duas freguesias, a freguesia do Carvalhal e da Roliça, que não desejam ser integradas no hipotético concelho do Bombarral.
Estas duas freguesias vêm mostrar as violências que sobre elas querem exercer e os processos que tem usado para as obrigarem a uma desintegração, que elas não desejam.
<; Para que é que nós vamos desintegrar essas freguesias, quando elas não o desejam?
Eu pergunto se depois de tudo isto, nós devemos ir votar o concelho do Bombarral.»

Senador Evaristo de Carvalho, Acta de 19 de Dezembro de 1912, Sessão Legislativa 3, nº14, páginas 8 a 17.
 
Congresso da República

«Não me esqueço, nem nunca me esquecerei de que nas eleições de 1905, 1906 e 1908, no tempo do reinado de D. Carlos e no reinado de D. Manuel, os povos do BOMBARRAL prestaram enormes serviços à República, em que não houve caciquismo, nem de regeneradores, nem de progressistas, nem de Govêrnos extra partidários, nem de Govêrnos de acalmação, nem enfim de quaisquer dos Govêrnos da monarquia, que fosse capaz de fazer que os povos do BOMBARRAL sentissem esmorecer a sua fé republicana.»

Sr. João de Menezes, Acta de 18 de Março de  1914, Sessão Legislativa 4, nº7 página 1.
 
 
 
O ENTUSIASMO E PERSEVERANÇA POPULARES
 
Durante o período em que se aguardava pelo reconhecimento da criação do Concelho do Bombarral, as suas gentes viviam em grande ansiedade, designadamente os mais revolucionários, e a expectativa de um desfecho favorável, por incerto, trazia-os em perfeita angústia.

Contudo, com a aproximação do final da Legislatura de 1911 a 1914, o nervosismo de dirigentes e populações exacerbou-se, porque o assunto subira ao Congresso da República e acabara de saber-se que iria ser debatido e votado definitivamente na sua sessão a 18 de Março daquele último ano. Aconteceu nesse dia, no entanto, um episódio interessante e curioso.

Evandro Freire tocava bombo na banda do Bombarral, naqueles idos, e os nossos líderes da época convencionaram que, assim que chegasse à Estação de Telégrafos o telegrama que confirmasse a elevação de Bombarral a concelho, logo ele arrancaria pela localidade a percutir o bombo, à palavra de ordem da respectiva funcionária: “Evandro toca o bombo!”.

E assim aconteceu naquele final de tarde de há 95 anos: Os Senadores e Deputados consagraram o Bombarral como sede de concelho, o famigerado telegrama chegou, a palavra de ordem foi lançada e o Evandro Freire irrompeu, Bombarral a fora, brandindo pancadas, as mais sonoras, nas peles tensas do seu bombo. E foi o delírio!
 
  
Evandro Freire                         Manuel de Arriaga                         Bernardino Machado
 
A FORMALIZAÇÃO LEGISLATIVA
 
Dez dias depois de aprovada pelo Congresso da República, a Lei que criara o concelho do Bombarral foi publicada:
 
LEI N.º 123

Em nome da Nação, da Nação, o Congresso da República decreta, e eu promulgo a Lei seguinte:

Art.º 1.º – é o Governo autorizado a criar, desde já, um novo concelho do distrito de Leiria, constituído com as paróquias do Carvalhal,     da  Roliça e do Bombarral, pertencentes ao concelho de Óbidos, com o nome e sede da última paróquia indicada.

Art.º 2.º – O Governo indicará posteriormente, nos termos do novo Código Administrativo, quando promulgado, os direitos e     responsabilidades que cabem, tanto às
paróquias desanexadas, como àquelas que ficam constituindo o concelho de Óbidos.

Art.º 3.º – Fica revogada a legislação em contrário.

O presidente do Ministério e Ministro do Interior e os Ministros de Justiça, Finanças, Guerra, Fomento e Instrução Pública o façam     imprimir, publicar e correr.

Dada nos paços da República, e publicada em 28 de Março de 1914.

Manuel de Arriaga, Bernardino Machado, Manuel Monteiro, Tomaz Cabreira, António Júlio da Costa Pereira de Eça, Aquiles Gonçalves     Fernandes, José Matos Sobral Cid.
 
DECRETO N.º 465

Sob proposta do Ministro do Interior, e nos termos do artigo 1º da lei de 28 de Março último: hei por bem, usando da faculdade que     me confere o nº 3º do artigo 47º da Constituição Política da República Portuguesa, decretar que seja criado o concelho do Bombarral,     constituído com as paróquias do Carvalhal, Roliça e Bombarral, pertencentes ao concelho de Óbidos, com sede na última das referidas     paróquias.

O Presidente do Ministério e Ministro do Interior assim o tenha entendido e faça executar. Dado nos Paços do Govêrno da República, e     publicado em 6 de Maio de 1914. == Manuel de Arriaga == Bernardino Machado.
 
DECRETO N.º 466

Tendo, por decreto desta data, em virtude do artigo 1º da lei de 28 de Março último, sido dividida em dois conselhos a circunscrição do antigo concelho de Óbidos, conservando êste a sua antiga denominação, passando a denominar-se do Bombarral o que em virtude da dita lei é criado, e, consultando a Procuradoria Geral da República, que para o primeiro dos referidos concelhos deve subsistir a Câmara para êle últimamente eleita: hei por bem, sob proposta do Ministro do Interior, e por assim o exigirem as circunstâncias não previstas e acauteladas nas leis vigentes que regem o assunto, nomear para o referido concelho do Bombarral uma comissão incumbida de proceder a todos os actos indispensáveis de organização do referido concelho e até a constituição definitiva dêste pela posse da respectiva Câmara Municipal que vai ser eleita.

Vogais efectivos: Adriano da Silva Nunes, António Bruno Patoleia, António Ferreira dos Santos, António Pereira Bernardino, Álvaro César Furtado, Bernardo Gomes, Casimiro da Silva Cairel, Duarte Simão, Francisco Pereira dos Santos, João Coelho Monteiro, João Gonçalves Ferreira, José Patrício de Campos, José Bernardo, Mapril Fonseca, Tomás da Conceição Rosado e Tomás Inácio de Ceuta.

Substitutos: Joaquim Pereira Fialho, José Teodoro Bicho, Luciano Pereira Bruno, António Pedro Carneiro, Miguel Baptista Nunes, Gabriel Laura, Francisco Alberto da Silva, Pedro Mendonça Fernandes, José Nunes Quitas, Luís Gomes, António ferreira da Fonseca,

Manuel da Silva Mouga, Joaquim Carvalho Júnior, António Ribeiro Jorge e José dos Santos Sério e António Coelho.

O Presidente do Ministério e Ministro do Interior assim o tenha entendido e faça executar. Dado nos Paços do Govêrno da República, e publicado em 6 de Maio de 1914. == Manuel de Arriaga == Bernardino Machado.
 
DECRETO N.º 467

Tendo por decreto da presente data, em execução da lei de 28 de Março último, sido criado o concelho do Bombarral: hei por bem, sob proposta do Ministro do Interior e no uso da faculdade que me confere o nº 3º do artigo 47º da Constituição da República Portuguesa, fixar o dia 7 de Junho próximo para a eleição da respectiva Câmara Municipal e do Procurador à Junta Geral do Distrito.

O Presidente do Ministério e Ministro do Interior assim o tenha entendido e faça executar. Dado nos Paços do Govêrno da República, e publicado em 6 de Maio de 1914.== Manuel de Arriaga == Bernardino Machado.
 
ELEIÇÕES
 
A “Comissão” instaladora logo meteu mãos à obra para promover condições, tal como os Decretos impunham, a fim de efectivar a preparação e realização das eleições, desenvolvendo paralelamente esforços para encontrar um espaço, minimamente digno, onde a Câmara e os seus serviços se viessem a instalar.

No afã de servir, a “Comissão” reuniu a 9, 17 e 30 de Maio de 1914, divulgando-se, seguidamente, pelo seu valor histórico, parte da acta da primeira dessas reuniões.

As primeiras eleições municipais ocorreram a 7 de Junho e a elas se candidataram listas únicas, apresentadas pelo Partido Republicano, para os dois órgãos concelhios a eleger, a Câmara Municipal e a Comissão Executiva, com a propositura dos elementos que seguidamente se identificam:
 
 
Tomaz Inácio de Ceuta                                       Júlio Tornelli
 
 
Primeira página da acta da reunião de 9 de Maio de 1914 da «Comissão» instaladora
 
CÂMARA MUNICIPAL

Presidente - Tomaz Ignácio Ceuta
Vice-Presidente - António Bruno Patuleia
Secretário - Hermínio Gomes Ferreira
Vice-Secretário - Mapril Fonseca
Adriano Silva Nunes
António Vieira Mota
Bernardo Gomes
José Veríssimo Duarte
Luiz Soares Paulino
Patricio Venâncio Ferreira
Salustiano Santos Leal Júnior
Fernando Santos Leal
 
COMISSÃO EXECUTIVA

Presidente - Júlio Tornelli
Vice-Presidente - Tomaz Conceição Rosado
Secretário - António Pereira Bernardino
José Bernardo
José Patrício Campos
 
O acto eleitoral foi francamente participado, pois as populações do Bombarral tinham podido votar nos seus conterrâneos para dirigirem os destinos municipais locais, com a sede do concelho na freguesia com o mesmo nome, que fora a base da contestação e reivindicação autárquica, por que as suas gentes se vinham batendo há mais de vinte anos.
 
E GANHÁMOS UM CONCELHO!
 
As aspirações dos bombarralenses estavam agora consumadas, pois, a partir de 7 de Junho e encerrado o acto eleitoral, só restava concretizar a instalação da Câmara e dar posse aos cidadãos eleitos para os órgãos municipais.

A 29 de Junho de 1914, dia fixado para a posse, dá-se um facto insólito! Tomaz Inácio de Ceuta, republicano convicto, defensor e militante intransigente da criação do Concelho, que fora cabeça de lista para a Câmara Municipal e, por isso, candidato a Presidente da edilidade, não compareceu ao acto, dispensando-se de ocupar o cargo.

A situação, todavia, foi naturalmente resolvida, logo no próprio dia e na primeira reunião da recém-empossada Câmara, vindo António Bruno Patuleia, natural candidato a Vice-Presidente, a assumir o cargo, pelo que, na realidade, foi ele o primeiro Presidente da Câmara Municipal do Bombarral.

Entretanto, o Presidente da “Comissão” instaladora e da Comissão Paroquial Republicana de Bombarral, Adriano da Silva Nunes, promovera o arrendamento de uma propriedade pertencente a António Joaquim Pinheira, situada na Rua da Madalena, na qual se instalaram provisoriamente a Câmara e os serviços municipais até 1 de Abril de 1915.
 
 
Edifício da Primeira Câmara Municipal  (29 Junho de 1914 – 1 Abril 1915)
 
 
António Bruno Patuleia                                Brasão Municipal
 
Terminamos reevocando Evandro Freire e o seu contagiante contributo para a euforia dos concidadãos, em singela homenagem a um homem simples, mas grande bombarralense, que congregou, uniu e animou toda a população anónima da sua terra, que, sem sabermos sequer os seus nomes, tanto deu, sofreu, esperou e acreditou, para que fosse possível herdarmos um Concelho, onde descansam os antepassados, ensinam experiência os mais velhos, trabalham e estudam as classes activas e que se augura de feliz porvir para os vindouros.
 
 
Caricatura da Época